Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Sábado, Abril 30, 2005
O Cruzamento, L. F. Calaca (16/08/2004)
O TIRANO
"Sou um homem doente... Um homem mau.
Um homem desagradável"
MEMÓRIAS DO SUBSOLO,
Fiódor Dostoievski
"o homem mais poderoso que há no mundo
é o que está mais só"
UM INIMIGO DO POVO,
Henrik Ibsen
Hoje deixei as coisas destruírem meu corpo. Fui mutilado em minhas lágrimas e minha ira virou semente, como tantas outras, de esterilidade. Acordei de um sonho estranho, de ilusões perfeitas e desilusões mascaradas. Uso os fragmentos de minha armadura para sufocar minha deformidade. Não tenho olhos. Arranquei-os ao descobrir minha arrogância. Não por humildade, mas para não ouvir. Vomito-me. As coisas são eu mesmo, que refletido no espelho tive meus pecados manifestos em cores de contraste e semelhança. Meu punho cerrado sobre a mesa, após estrondo surdo, se transformou em cinzas. Não existem espelhos, apenas limalha de ferro. A outra mão, liquefeita, deixa marcas de piche nas paredes vermelhas cor de vendaval. Amanheci soterrado em mim mesmo. Quero abandonar tudo. Quero destruir quem me transformou em carne. Quero a loucura de um poema de dor, rancor e sofrimento. Quero desprender minha carne dos ossos e virar simplesmente um filamento. Todos os meus gestos são arco-reflexo. Rebato meus próprios argumentos cíclicos. Rebato minhas idéias tirânicas. Sou dissimulado. Sofro a dor dos pacientes terminais. Sem sentidos e sem morfina. Amanheço solitário no deserto das idéias que remôo, remôo, corôo, devoro, degusto, minusculamente... minusculamente. Sinto-me como um eu pleno de coisa alguma, quero atear fogo nas cartas de amor. Quero atear fogo nos provérbios. Quero atear fogo nas coisas velhas e carcomidas. Quero atear fogo nos psicologismos e virar pura abstração e pensamento convulso. Amarro minhas mãos e meus lábios. Imobilizo-me. Transformo meu corpo em planta carnívora e erva venenosa. Mordo meu corpo que sangra tinta opaca. Tranco-me num baú com cadeado emperrado. Esqueço-me. Esqueçam-me. Não existem mais formas perfeitas.
(L. F. Calaça | 29/04/2005)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 10:54 AM Comments:
Henrik Ibsen
"(...) Somente o pensamento livre, as idéias novas, a capacidade de pensar diferente do outro, o contraditório, podem construir para o progresso material e moral da população. É por isso que, repito, considero imperdoável (...) afirmar diariamente a falsa doutrina segundo a qual só é a massa, a multidão, a maioria que possuem autoridade para dizer o que é e o que não é liberdade e moral. Esta mesma teoria prega que o conhecimento, a cultura e o progresso são fontes de vício e corrupção, envenenando a sociedade (...)"
O INIMIGO DO POVO, Henrik Ibsen
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 10:51 AM Comments:
Domingo, Abril 24, 2005
Placebo
Olá pessoal.
Tenho de confessar de que fui, sim, um dos que foi ao show do Placebo conhecendo apenas uma música, Every me, every you, em duas versões, hites e acústico, mas apenas uma música.
Mas eu gostei! Gosto de músicas tecno, misturada com rock. Eles são meio estranhos, o vocalista é meio andrógino e o baixista é uma figura tosca e desengonçada que fica fazendo performances ridículas, mas a música é legal, num entre lugar entre o pop de adolescentes pseudorevoltados e rock depressívo.
Gosto de estilo glam, apesar de não saber direito o que é, mas acho que tem a ver com o fato de eles "se montarem" para fazer o show, ter aquela aparencia de pôser e uma sexualidade pouco definida.
Estou falando um bocado de merda, futilidades e babaquices mas isso é legal. E lacebo é legal, e virou minha mais nova compulsão. Descobri que sou compulsivo. Gosto de ser compulsivo, mas não vou usar maquiagem, nem vou cortar meu cabelo parecendo um piriquito depenado, ou vou dar gritos histéricos, ou entrar em extase porque fui ao show ou peguei no braço de fulano. (Entrei numa comunidade do Placebo e tinha um carinha que estava em furôres!)
Bem... é isso.
Estou esperando os três CDs da banda que eu comprei pela internet, já que não se encontra nada depois do show. Êta cidadezinha provinciana! Ser provinciano também é legal, apesar de irritar às vezes.
Um abraço a todos,
L. F. Calaça
EVERY ME EVERY YOU
Interprete: Placebo
Composição: Desconhecido
Sucker love is heaven sent you
Pucker up our passion's spent
My heart's a tart, your body's rent
My body's broken your's is bent
Carve your name into my arm
Instead of stressed I lie here charmed
'cos there's nothing else to do
Every me and every you
Sucker love a box I choose
No other box I choose to use
Another love I would abuse
No circumstances could excuse
IN the shape of things to come
Too much poison, come undone
'cos there's nothing else to do
Every me and every you
Every me and every you
Every me
Sucker love is known to swing
Prone to cling and waste these things
Pucker up for heaven's sake
There's never been so much at stake
I serve my head up on a plate
It's only comfort, calling late
'cos there's nothing else to do
Every me and every you
Every me and every you
Every me
Every me and every you
Every me
Like the naked leads the blind
I know I'm selfish, I'm unkind
Sucker love I always find
Someone to bruise and leave behind
All alone in space and time
There's nothing here, But what's here's mine
Something borrowed something blue
Every me and every you
Every me and every you
Every me
Every me and every you
Every me
Every me and every you
Every me
Every me and every you
Every me
Every me and every you
Every me
Every me and every you
Every me
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Análise de uma Ilusão, L. F. Calaça (09/04/2005)
MIDAS
Tudo à minha volta se desfaz,
o mundo desmoronando a um toque.
Os corpos imóveis nas ruas mortas
e o silêncio atravessando a ponte.
Às vezes prefiro a mutilação
destas mãos amaldiçoadas,
que transformam vida em pedra
e o canto de um pássaro em lembrança.
As portas se fecham á minha volta,
como um leproso me distancio dos seres.
Imergirei no abismo das células,
glândulas, neurônios e anomalias.
Aqui,
as paredes viraram ruínas
e o instante deixou de existir.
(L. F. Calaça | 09/04/2005)
MANIFESTO
Escrever como quem chora...
Escrever como quem ama...
Escrever como em chamas
derramadas sobre os amantes.
Escrever por necessidade,
vital necessidade de sentir.
Mesmo quando faltam versos
para expressar a complexidade
dos corpos.
Escrever como que possuído
por um desejo mórbido de loucura,
de sentir-se sentido e linguagem,
de sentir-se homem e eterno.
Escrever como quem morre,
a cada instante, transformado
em memória do inteligível,
em segredo inevitável.
Escrever, afinal de contas,
como quem vive de sonhos,
como quem atravessa
a realidade.
(L. F. Calaça | abril-2005)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 10:49 AM Comments:
Sábado, Abril 16, 2005
Shull, Salvador Dalí
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 9:44 PM Comments:
Sábado, Abril 09, 2005
Renè Magritte
O PREFACIADOR
Procuro quem me interprete, que desvende os mistérios sutis desta nervosa incoerência. Procuro alguém que caminhe sem pés, sem olhos, sem tato, neste túnel vazio e repleto de abismos. Sentir-me, dentro do salão ovalado, das paredes sem cantos, onde não se pode esconder ou proteger o corpo da dor e da ânsia. Eu mesmo tenho medo de me abandonar aos mistérios das coisas silenciosas, que ecoam com estrondo e desmoronam muros de plasma. As pontas dos dedos vagando pelos livros sem cor, sem forma, sem letras douradas. Garrafas estilhaçadas nas paredes repletas de pinturas surrealistas. Os conceitos adjetivados, os substratos e o calabouço claustrofóbico. O conto antecede o verso e o princípio dá lugar ao contínuo segmento de idéias. Estranha sensação de morte, estranha sensação de tristeza muda e atormentada. Ruídos de cadeiras arrastadas, sempre e indefinidamente jogadas da janela de chumbo. Blindagens, hermetismos. As impressões apenas, o sentimento e o desejo de transpirar, pôr para fora o espírito ressurgido do colapso. Repetidas vezes, milagres milenares. Voltarei a caminhar quando meus pés regressarem de uma viagem distante. Dói o ponto abstrato onde antes adormecia um ventre. Figurações, imagens e representações do momento transcorrido, transbordante e insigne. Amanhã amanhecerei sob a marquise do décimo segundo subsolo. Menina caída no espaço verde, nas figuras azuis e nas imagens dissociadas. Continuarei minha busca por quem me guarde, como alguém que não agüenta as pálpebras e o tempo indefinido da espera. Espera?! Silencio-me e contemplo o momento imediato, quando... Quando não sei coisa alguma e desejo tirar fotos em preto e cinza. O gato pardo, a imagem sem nariz, o bloqueio e a murada. Ele esperou bastante com suas rosas. Talvez elas jamais nos deixem. Talvez elas não existam. Talvez bastem as orelhas decapitadas e os olhos arrancados do dedo indicador. Basta o fragmento ou a coisa mesma. Não sei, nem serei. Reconfiguro-me e derramo sombras.
(L. F. Calaça | 08/04/2005)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:36 PM Comments:
Sexta-feira, Abril 08, 2005
Esse foi o parecer da Fundação Cultural. Apesar da crítica sobre o "Retrato de uma esfíge suicída", que eu realmente acho fraquinho e pretendo tirar do conjunto, já que não sei como alterar sem perder o conteudo, acho que foi bem favorável sobre os textos.
(Essa foi minha primeira recepção crítica de fato)
O livro deverá demorar para sair. Terei de fazer as alterações necessárias até o dia 26, depois cai no campo da burocracia. Com sorte, até o fim do ano pode ser q saia o livro. Com sorte! Mas continuo feliz!
L. F. Calaça
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 5:55 AM Comments:
Quinta-feira, Abril 07, 2005
Gente, tenho uma notícia MUITOOOOOOOOO boa!
Digo até que ainda estou tremendo.
Terei o meu primeiro livro publicado, pelo Selo Editorial Letras da Bahia, da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Será um volume contendo meus primeiros contos e parte dos textos postados aqui, logo nos primeiros arquivos. O título como não poderia deixar de ser será
RUÍNAS ALADAS.
Eu recebi a notícia ontem de que meu livro tinha sido aprovado pela Comissão Avaliadora do Selo Editorial.
Eu tinha me inscrito fazia um ano e já tinha perdido todas as esperanças. Hoje à tarde terei meu primeiro contato, provavelmente para assinar os papeis para dar início ao processo de editoração.
Estou muito feliz.
Um abraço a todos!
L. F. Calaça
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:10 AM Comments:
Sábado, Abril 02, 2005
Renè Magritte
TRANSPARÊNCIAS
As moscas pousam nas folhas rotas de meus mistérios.
Homens perdidos no campo de centeio e mulheres enforcadas no salão sem janelas.
As falanges dedilhando tons no órgão ensanguentado do penitente cardíaco.
Figuras transformadas em anjos sem lençõis de linho.
Primeiro verso no amanhecer enluarado, entre cantos e latidos.
Migalhas despejadas aos abutres e sentimentos soterrados no sétimo andar térreo.
Miragens navegando entre palestrantes e pederastas.
Adormeço mal as luzes de íons se acendem frias.
As crianças debruçadas nas gangôrras ciclicas e ciclonais.
O andarilho e suas cordas de ventrilouco, sorriso sem dentes.
O estôimago repleto de dias e lascas de Sol encandescente.
Almas transportadas do momento tal, sem referências.
E as denúncias, as transparênciasa, as folhas nulas, o destino?
Demônios ladram no portilhos e o relógio grita horas vagas.
Submeto-me ao milagre das coisas transafiguradas, das imagens subatômicas.
O subsolo deposita minhas vivas e tristes lembranças de um filme monocromático.
Alguém deixou os olhos na bandeija de entrada, as mãos na soleira e os pés na escada.
Alguém desfez meus impulsos e sonhos atordoados.
Alguém me disse que o amanhã jamais precede o último homem.
Alguém me chamou e não ouvi.
(L. F. Calaça | 26/03/2005)
Renè Magritte
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 3:24 PM Comments:
EXPERIMENTAL
O muro envolve as raízes
que brotam de meu cérebro.
Minhas unhas e meus genes
se misturam à massa concreta.
As filas, os divãs, a nudez,
o silêncio e o helicóptero
acordando o semi-paralelo.
Os blocos caindo do teto.
As armas, as balas, as correntes
o fundo da música parada.
O menino experimental desconhecido
e o dilema entre o não e o porquê.
As flores nunca nascem, neste pantano
de sangue, feto e miragens.
As teorias derrubam santos,
mas não derivam emoções.
O muro acompanha as falhas
abertas em fenbda tectônica,
jorrando lava, líquor e placenta,
vertendo dores, flores e cimento.
(L. F. Calaça | 27/03/2005)
(poema escrito após assistir THE WALL, do Pink Floyd, pela primeira vez)
SUSPIRO
Se o tempo parasse
diria adeus aos segmentos
de espaço vazio
que demarcaram a existência
preenchendo-a de vácuo.
Se o tempo parasse
não haveria matéria,
nem espaço,
logo as coisas seriam
pura abstração de consciência.
Não haveria ciência, afinal.
Os homens seriam livres,
pois deixariam de ser homens
e seriam energia cósmica
pulverizada no caos.
Se o tempo parasse
o mundo daria voltas
concêntricas e transversas
não haveria momento de pressa
e todos se amariam nús.
Se o tempo parasse...
mas ele não pára
e eu vomito ilusões.
(L. F. Calaça | 26/03/2005)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:27 AM Comments: